Conheça Elsa Schiaparelli, a costureira surrealista

Quando você fechar o zíper do vestido ou vestir a cor rosa shocking , uma das cores mais importantes nas coleções para o verão 2018, agradeça a Elsa Schiaparelli.

Desconhecida de quem não trabalha de moda, a costureira criou estilos que se conservam arrojados até hoje.

A  moda e a arte sempre caminharam juntas para Elsa Schiaparelli, uma italiana que não criava simplesmente roupas, chapéus e acessórios, mas verdadeiras obras de arte.

Suas roupas eram feitas para impressionar, para destacar quem as usava.

Schiaparelli Verão 2017

O estilista que desenha para a marca atualmente, Bertrand Guyon, visitou como referências o oriente e a própria história de Schiaparelli, revivendo ícones da Maison.

Também se inspirou nos quimonos e hanfus que ela usava em casa para receber, com influencias que vão do romântico Jean Cocteau (que já colaborou, quando vivo, com Schiap) ao sexy Guy Bourdin.

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 Entre os símbolos revisitados o buraco da fechadura fazendo as vezes de decote, o perfil cálice e o vestido Lagosta.

Na coleção uma versão do mítico vestido-lagosta, desenhado por Salvador Dali,  imortalizado por Wallis Simpson em 1937 e usado como homenagem por Anne Wintour, diretora da Vogue americana

Conheça Elsa Schiaparelli

 

Schiap, como era conhecida em Paris, viveu seu auge de sucesso nos anos 1930.

Era amiga dos artistas da época, como Jean Cocteau e Christian Berárd, mas foi com o surrealismo de Salvador Dali que ela mais se identificou.

Chegaram a trabalhar juntos em várias criações , como o chapéu-sapato, a bolsa em forma de telefone, o tailleur-escrivaninha e o vestido decorado com uma grande lagosta.

A estilista-artista

Elsa Schiaparelli nasceu em Roma, Itália, em 1890.

Era neta de Giovanni Schiaparelli, um famoso astrônomo que descobriu os canais do planeta Marte.

Sua família possuía uma boa situação financeira, o que permitiu que ela fosse estudar na Suiça.

Estudou filosofia na Universidade de Roma .

Nessa época publicou um livro de poesia erótica que chocou sua família, e por essa razão, foi enviada a um convento, até que declarou greve de fome.

Aos 22 anos aceitou um trabalho em Londres como babá, onde teve seu primeiro contato com a moda e conheceu seu marido, o filósofo, jogador e conde Wilhelm deWinte de Kerlor  (Willy de Kerlor ) em 1913.
O casal se mudou para New York, nos EUA, para onde nasceu sua filha Gogo, que viria mais tarde a lhe dar uma neta, a atriz Maria Berenson.

Seu casamento durou pouco e Schiaparelli, com uma filha pequena para cuidar, por não conseguiu sobreviver sozinha na América, voltou para a França.

 
Em 1920, quando o marido, o conde Willy a trocou por Isadora Duncan, ela se mudou com a filha para Paris, sozinha e sem dinheiro.

Fez amizade com o estilista responsável por eliminar os corseletes e o maior sucesso da época Paul Poiret, que lhe dava roupas, e através dele, tomou gosto pela moda.
Depois que sua filha Gogo foi diagnosticada com paralisia infantil, Schiaparelli teve que usar a criatividade para pagar as operações e estudos da filha.

Nessa época, Schiap já desenhava e começava a vender seus primeiros tricôs.

Encorajada por Paul Poiret, Schiap abriu uma butique em 1928 , a Pour Le Sport ,e, em 1929, apresentou a primeira coleção, que foi um verdadeiro sucesso a encorajando abrir sua primeira maison.

O primeiro sucesso comercial foi a malha preta, ornada com uma gravata de mentira (em trompe l’oeil ).

Sua primeira cliente particular foi Anita Loos, autora de “ Os Homens Preferem As Loiras “.

Elsa sempre esteve ligada aos artistas de sua época.

Era amiga de muitos como Marcel Duchamp, Picabia, May Ray, Stieglitz, Jean Cocteau, Christian Berárd e Salvador Dali.

Ela acreditava que a moda não podia estar desvinculada da evolução das artes plásticas contemporâneas, sobretudo a pintura.

Schiaparelli era a maior rival da famosa estilista Coco Chanel. Comentários da época garantem que Chanel jamais pronunciou o nome da concorrente, que chamava de “a italiana”

Seus estilos eram totalmente opostos: enquanto Chanel criava roupas funcionais para a mulher moderna, Schiap. fazia modelos surrealistas exóticos.

Todas as coleções de Schiap se inspiravam em fantasia ou partiam de um ou dois temas dominantes.

Uma das suas coleções mais famosas foi a coleção Circo – com cavalos, elefantes ou acrobatas no trapézio bordados nas peças – com os boleros com botões de cabeça de palhaço e o chapéu em forma de sorvete.
Elsa também lançou a coleção Astrologia, na qual se destacava uma luxuosa capa de enormes signos do zodíaco bordados em ouro. Assim como o motivo ” Phoebus “, um sol radiante em suas coleções , como a música, o fundo do mar e a ” Commedia dell’ Arte “, na qual aparecem as capas com losangos de veludo.

Ela inovou nos materiais utilizados em suas roupas como zíper, crepe, celofane, plástico as fibras sintéticas  entre outras novidades

Super engenhosa, no início da guerra, quando os materiais estavam escassos, usou elos, coleira, clipes.

Também transformou o uso de viyella, um tecido usado  em quartos de crianças, assim como Chanel fizera com o jérsey.

Criou um tom de rosa eletrizante, o qual ela chamou de ” shocking” e virou nome de perfume.

O frasco foi desenhado pela pintora surrealista Leonor Fini e tinha a forma de um torso feminino, na verdade, o da atriz Mae West – sua cliente.

Jean Paul Gaultier copiou a ideia para um perfume seu reproduzindo no vidro da embalagem o corpo da cantora Madonna.

 
Apesar de ter tido clientes como as atrizes Greta Garbo, Joan Crawford e Carole Lombard, ela não fez muitos figurinos para o cinema.

Desenhou figurino para os filmes ” Every Day’s a Holiday “, com Mae West, ” Artists and Models ” e ” Moulin Rouge “, com Zsa Zsa Gabor, em 1952 .
Seu relacionamento com a comunidade artística era bom para ambas as partes e lhe rendia não só desenhos inovadores, como espaço nas colunas sociais.

Em 1939, quando explodiu a Segunda Guerra Mundial na Europa, Schiap fechou sua maison, preferindo colaborar com os esforços antinazistas nos EUA e dando palestras.
Quando a guerra chegou ao fim, ela retornou a Paris, em 1945.
Nessa época, passaram por seu ateliê alguns estilistas famosos, como Hubert de Givenchy e Pierre Cardin.
Apesar dos esforços para continuar sua produção, os tempos mudaram para Schiaparelli (veio o ” New Look ” de Dior ).
Com dificuldades financeiras e pessoais, ela acabou fechando a sua maison em 1954.
Nessa época , Elsa lançou um livro de memórias, intitulado ” Shocking Life ” ( com capa cor-de-rosa ).
Ela morreu em 1973, aos 83 anos.

Elsa e o Surrealismo

Um vestido não pode simplesmente ficar pendurado numa parede como um quadro, ou permanecer intacto como um livro, e ter uma vida longa e protegida !

Elsa tinha uma íntima ligação com a arte e achava que a moda e a arte poderia interagir perfeitamente, a ” arte-usável ” 

Elsa era autodidata e não tinha formação em moda, o que era motivo de escárnio por parte de sua contemporânea Chanel.

Isso deu a ela, de certa forma, mais liberdade para ser experimental e mais divertida do que outros criadores de moda do seu tempo.
Os movimentos artísticos como o cubismo e o surrealismo tiveram influência sobre suas criações.

Em 1933 introduziu a chamada manga pagode, influenciada pela moda egípcia, e os ombros largos que caracterizaram a moda até o chamado ” New Look “.

Criou acessórios divertidos e vestidos “wet look” em cetim com aparência molhado que virou mania em todos os filmes da época pela sensualidade de mostrar o corpo através da sugestão.

 Elsa lançou broches fosforescentes, cadeados nos casacos, o tingimento de peles .

Desenvolveu tecidos com estampas de jornal, com os quais fazia lenços.

As contribuições de Dali 

Vestido Lobster ( vestido Lagosta, 1937 ), Tears Dress (vestido de lágrimas, 1938 -desenhado para dar a ilusão de carne animal rasgada em forma de lágrimas), Vestido Esqueleto (feito de crepe de seda preta, tem espinha e costelas, produzidas com o método de acolchoamento trapunto.) , Shoe Hat (chapéu- sapato, 1933 ), tailleur gavetas.

 

Desde seus primeiros modelos de suéteres trompe l’oeil , Elsa Schiaparelli procurou tornar as roupas engraçadas em sintonia com o pensamento surrealista.

As contribuições de Jean Cocteau

Já com o artista Jean Cocteau, Elsa produziu um paletó e um sobretudo ornados por Lesage, o ateliê parisiense de bordados para a alta-costura.

O paletó incorpora uma mulher de longos cabelos louros pendendo por uma manga e braço envolvendo a cintura.

O sobretudo mostra dois perfis que criam a ilusão de um vaso para as rosas que adornam os ombros.

Os Insetos

Que apareceram em muitas coleções atuais