Por que as roupas femininas têm menos bolsos do que as masculinas

Quando foram inventados, só homens “tinham o que carregar”

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Os bolsos nos são úteis quando conseguimos, de fato, utilizá-los; quando são grandes o bastante para podermos colocar tudo o que precisamos lá dentro.

E isso é algo que raramente acontece nas roupas femininas em particular.

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Por que os  bolsos das mulheres são tão limitados? Por que são tão inúteis ou totalmente inexistentes?

Acontece que a resposta para essas perguntas permeia a moda ocidental desde o século XVII.

Ou seja, está arraigada na nossa sociedade há 400 anos, e tem a ver com uma questão sexista desde o começo.

Qualquer mulher já deve ter sofrido com bolsos falsos ou minúsculos – portanto inúteis – em calças, camisas e jaquetas.

Porque roupas para mulheres têm poucos bolsos, enquanto aquelas projetadas para homens vêm com uma porção deles.

A resposta tem a ver com papéis sociais de gênero.

Durante muito tempo, roupas de mulheres não tiveram bolsos porque os homens eram aqueles que “tinham o que carregar”.

“Homens têm bolsos para guardar as coisas. As mulheres, para decoração”, conforme o estilista Christian Dior em 1954.

A história dos bolsos

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Os bolsos apareceram no fim do século 17 como uma adaptação das algibeiras que as pessoas – homens e mulheres – costumavam carregar debaixo das roupas.

No entanto, eles foram incluídos apenas nas roupas masculinas.

As mulheres seguiram usando bolsas penduradas, muitas vezes decoradas com pedras e pingentes, presas sob as saias e eram acessadas por meio de cortes na roupa, quase como um bolso.

A revolução francesa trouxe novos padrões para a moda

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As roupas femininas ficaram mais apertadas e não havia mais espaço para esconder uma bolsa sob os vestidos.

O aspecto político da ausência de bolsos nas roupas femininas começa aí.

No século 18, não era esperado que mulheres trabalhassem ou tivessem qualquer economia.

Dinheiro não era um assunto para mulheres.

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Naquela época, tirar os bolsos das mulheres era tirar-lhes liberdade.

Quanto menos coisas a mulher carregava, menos liberdade tinha.

A hipótese de que a ausência de bolsos traz uma implicação real para as pessoas foi tratada em artigo publicado no jornal “The New York Times” em 1899.

O texto diz, de forma bem-humorada: “Na medida em que ficamos mais civilizados, precisamos de mais bolsos. Ninguém que não usa bolsos se tornou importante depois que eles foram inventados, e o sexo feminino não será páreo para nós (homens) enquanto usar roupas sem bolsos”.

No século 20, a revolução industrial colocou a mulher no chão de fábrica – e ela começou a usar calças para trabalhar.

As calças, que eram peças masculinas, tinham bolsos.

Quando a moda, focada em mulheres, incorporou a calça em seus projetos, os bolsos foram tirados de novo das roupas femininas.

O motivo? Deixá-las “mais femininas”. Daí, conclui-se que bolsos já eram considerados um acessório “masculino”.

A funcionalidade não era uma questão – tratava-se de estética.

Bolsos aumentam o quadril e deformam a figura que se espera que uma mulher tenha. Ou seja: enquanto roupas de homens são feitas pela funcionalidade, a das mulheres é feita para ser bonita.

E por que isso ainda não mudou?

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Mesmo depois de tanto tempo, em uma era em que mulheres conquistaram tantos dos espaços que antes eram ocupados apenas por homens –e a moda ainda não se deu conta de que elas também precisam de bolsos.

Um homem pode simplesmente deslizar as chaves e o iPhone para dentro do bolso para sair para uma reunião com os amigos.

Uma mulher que vá na mesma reunião ou precisa carregá-los na mão ou precisa trazer a bolsa toda com ela.

Uma das justificativas dadas para o fato de a moda feminina não ter avançado em prol da funcionabilidade é que bolsos continuam sendo esteticamente indesejáveis.

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E embora a função da mulher na sociedade tenha mudado, padrões estéticos ainda se mantêm.

História dos bolsos

Século XVII: Bolsos improvisados difíceis de acessar.

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A roupa feminina não teve bolsos durante a maior parte da história, mesmo quando começaram a aparecer nas roupas masculinas lá pelos anos 1600.

Enquanto os bolsos nas roupas masculinas eram costurados diretamente nas peças (assim como ainda são atualmente), as mulheres precisavam se virar e enrolar um saco com uma corda em volta da cintura, sob a saia.

Esse tipo de acessório era bem mais difícil de acessar, porque ficavam sob várias e várias camadas de tecidos e, para tirar algo desses sacos, as mulheres precisavam ficar praticamente nuas.

Século XVIII: Finalmente aparecem bolsos mais acessíveis.

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Durante os anos 1700, as pochetes usadas pelas mulheres como bolsos improvisados ficaram extremamente elaboradas, com enfeites e bordados costurados à mão.

E, felizmente, trouxeram outra melhora: fendas.

As fendas possibilitavam acesso aos bolsos pendurados sob os vestidos.

Mulheres ricas (e se você tivesse bolsos, provavelmente você era uma), poderiam conter qualquer coisa – desde algo minúsculo como alfinetes até algo maior como comida.

Os vestidos volumosos da época, com as fendas, ofereciam às mulheres a capacidade de usar muitas camadas de tecidos e ainda ter acesso ao bolso interno.

Século XIX: Bolsos caem em desuso e dão lugar às retículas.

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Nos anos 1800 quando a silhueta dos vestidos emagreceu para algo mais inspirado na silhueta grega, não deixou nenhuma margem para os bolsos internos permanecerem.

Assim nasceram as bolsas.

Retículas, como eram chamadas, eram bolsas minúsculas carregadas nas mãos ao invés dos quadris.

Elas também se tornaram um símbolo de status, pois não eram grandes o bastante para carregar o necessário, então as mulheres acabavam deixando todo o dinheiro para os homens carregarem.

Retículas maiores não eram bem vistas, porque elas simbolizavam uma mulher trabalhadora, impossibilitada pela pouca condição financeira de ficar em casa costurando lenços, bebericando chás ou algo do tipo.

Início do século XX: A volta dos bolsos – que não deveriam nem ter saído.

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Coco Chanel e Marlene Dietrich

Da metade para o fim dos anos 1800, mulheres começaram a se rebelar.

Os padrões dos vestidos começaram a incluir instruções para costurar bolsos nas saias, caso você quisesse ser uma mulher independente.

As mulheres também começaram a retomar seu direito pelo uso dos bolsos no início dos anos 1900, quando começaram a vestir calças.

Em 1933, a revista Women’s Wear Daily mostrou que isso era um assunto bastante controverso, perguntando às suas leitoras: “mulheres começarão a usar calças?”.

Aparentemente, na época, mulheres terem tecidos entre as pernas estava assustando as pessoas, já que contrariavam a obrigação de serem “femininas”.

Mas com as duas grandes guerras que se seguiram, veio o boom das roupas utilitárias para mulheres, que estavam agora trabalhando enquanto seus maridos lutavam por seus países.

E, com isso, as mulheres finalmente conseguiram calças que funcionavam e com bolsos.

Final do século XX: A moda quer silhuetas magras, por isso eliminou os bolsos.

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Diane Keaton, no filme “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, e Britney Spears

Os bolsos começaram a ser completamente retirados das calças femininas porque a moda é obcecada por emagrecer a silhueta.

Os anos 1970 e o início dos anos 1990 trouxeram um período de alívio quando o estilo boyish se tornou tendência.

Mas os anos 1990 trouxeram a ascensão da bolsa de luxo – o que não ajudou no  apelo aos bolsos e deixou a moda mais preocupada com a criação de bolsas, ao invés de garantir que as roupas tivessem bolsos.

Além disso, calças justíssimas de cintura baixa, que foram popularizadas por Britney Spears no final dos anos 1990, não tinham espaço nenhum para eles.

Século XXI: Bolsos para o  o celular

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Marion Cotillard e os bolsos modernos

Bolsos grandes andam aparecendo lentamente em alguns lugares – até em tapetes vermelhos.

Mas isso não significa que eles aparecem em roupas da vida real.